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Mulheres no comando da Polícia Militar

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Há pelo menos 30 anos algumas mulheres ocupam funções no alto escalão do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O presídio feminino Talavera Bruce está cheio de histórias sobre elas. Uma mulher gerenciou as bocas da Cruzada São Sebastião, no Leblon. Outra foi chefe do tráfico na Vila Vintém, em Realengo. E foi uma mulher que, nos anos 80, articulou a primeira rota internacional de entorpecentes da cidade, com fornecedores na Colômbia. Mais ou menos na mesma época, em 1982, Edite Bonfadini e Solange Vieira, então com 20 e 21 anos, viraram amigas na primeira turma de formação de oficiais da Polícia Militar fluminense. Até então, só havia mulheres entre os praças, em funções operacionais. E poucas.

policia-civilNo último dia 9, 27 anos depois de entrarem na PM, as tenentes-coronéis Edite e Solange tornaram-se as primeiras mulheres comandantes de batalhão do Estado do Rio.

Edite assumiu o comando do 13º Batalhão, no centro do Rio, e tem 426 subordinados. Solange está à frente dos 203 policiais do 4º Batalhão em São Cristóvão, Zona Norte da cidade. A mudança é decisão do novo comandante-geral da corporação, coronel Mário Sérgio Duarte, que tomou posse um dia antes. As duas estavam lotadas em cargos administrativos e agora vão coordenar operações em favelas e patrulhamento em áreas com altos índices de criminalidade.

“Estou corrigindo uma grande injustiça contra elas”, afirmou o coronel Mário Sérgio. “Todo mundo sabia da 0,,12149018-EX,00capacidade delas, mas até então só tinham mostrado êxito em funções burocráticas.” O governador Sérgio Cabral e o secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame atribuíram a escolha de mulheres para o comando da PM inteiramente ao novo comandante-geral. “Pode parecer senso comum, mas elas têm uma interpretação mais humana do trabalho”, afirma o coronel.

“Temos 27 anos de polícia e ainda somos novidade”, afirma a tenente-coronel Solange Vieira. “Até agora nós somos só estrelas, estamos na vitrine. Logo, logo viramos vidraça, para começarem a jogar pedra”, diz Edite, entre risos. Elas não estão acostumadas com o assédio da imprensa. Mesmo após uma semana de trabalho, ainda não conseguiram reunir o batalhão para uma apresentação oficial.

MulheresEdite, de 47 anos, se mostra feliz com o novo cargo. “Brinco lá em casa dizendo que ainda neste ano eu viro comandante-geral e, depois, chefe do Estado-Maior da PM”, afirma. “Mas não escreve isso não, porque vão pensar que estou de olho no cargo deles. Só não entrei no Bope porque não sei nadar muito bem.” Edite é solteira. Mora com a mãe e a irmã. O irmão mais velho também é policial militar. O pai, já morto, foi oficial da Marinha. Depois que a filha resolveu entrar na PM, só a chamava de “subordinada”. “Pena que ele não viveu para ver este momento”, afirma Edite. “Mas ele está lá em cima assistindo.”

O perfil da tenente-coronel Solange Vieira, de 48 anos, é diferente. Tímida, só abandonou a pose clássica para fotos de oficiais, com as duas mãos nas costas, quando recebeu um abraço de Edite. As duas destoavam à frente de um painel com fotos amareladas dos ex-comandantes do 13º Batalhão, em que Solange era convidada de Edite para um almoço. Na parede, todos são homens, com o rosto fechado. No dia da entrevista a ÉPOCA, as duas foram as primeiras a entrar no refeitório do batalhão, dando ordens para que os demais também se servissem.2882 Enquanto Edite colocava estrogonofe sobre o arroz, Solange soava preocupada ao telefone. Na televisão, um programa da tarde mostrava, ao vivo, uma operação policial no Morro da Mangueira, jurisdição do batalhão da tenente-coronel Solange. Os homens que comanda faziam a “contenção do entorno” – o que na prática significa vigiar as entradas da favela e evitar protestos pela morte de traficantes. “Na minha área, não vai ter ônibus queimado”, afirmou Solange, pouco depois de desligar o celular. Suas anotações eram o saldo da operação. No guardanapo de papel lia-se uma lista com três mortos e a apreensão de uma metralhadora .30, três pistolas 762 e drogas.

Separada, Solange mora sozinha. Recebe em casa o filho de 16 anos quando ele tem folga da escola de cadetes da Aeronáutica em Minas Gerais. Na primeira semana de trabalho, reformulou o esquema de patrulhamento na região onde atua, conhecida pelos altos índices de roubo de carros e assaltos. “O crime é dinâmico. O tipo e o local da ocorrência estão sempre mudando. Então estou acabando com os postos fixos e aumentando o contingente de policiais nas ruas, em patrulhas ou a pé”, afirma. Foi sua primeira providência.

O excesso de visibilidade também fez surgir outra preocupação. “Agora que a gente está saindo nas fotos, temos de andar sempre arrumadinhas, né?”, diz Solange. “Cabelo pintado e o batom sempre no bolso. Estou até pensando em voltar a fazer minhas corridinhas, para afinar um pouco.”

Mulheres já ocupam cargos de liderança na Polícia Militar em outros Estados brasileiros. A pioneira foi Hilda Macedo, em 1955, idealizadora e comandante do primeiro batalhão de policiais femininas do país, em São Paulo. A primeira no país a comandar um batalhão de homens foi a coronel Luciene Magalhães de Albuquerque, de Minas Gerais. Em 1992, ela assumiu o comando do 34º Batalhão de Belo Horizonte. Hoje, é subchefe do Estado-Maior da PM mineira. O tipo de desafio no Rio às voltas com o tráfico, porém, é uma responsabilidade inédita para mulheres comandantes.

No Rio, em novembro de 2008, a capitã Pricilla Azevedo assumiu o comando do posto de policiamento comunitário da Favela Santa Marta, em Botafogo, Zona Sul do Rio. À frente de batalhões, Edite e Solange têm responsabilidades maiores, mas não parecem temerosas. “Não tenho medo de nada, nem de barata”, afirma Edite.

Fonte: Época

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